A delicadeza de deixar de ser criança em “Azul é a Cor Mais Quente”

Hoje vi que crescer não é fácil e fazer filmes bons sobre esse processo é menos ainda…

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Em tempos da necessária militância à favor de direitos iguais para os homossexuais é impressionante que uma história de amor protagonizada por duas mulheres levante menos polêmica e mais reflexão. Por mais que muito tenha sido dito à respeito da longa e desnecessária cena de sexo que gerou acusações de abuso ao diretor Abdellatif Kechiche (ambas as protagonistas declararam que não trabalharão novamente com ele) ela é a primeira coisa a ser esquecida quando deixamos a sala de cinema de “Azul é a Cor Mais Quente”La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2 – 2013). O que fica em nós é a força do filme que desperta a sensação agridoce sobre o fim da juventude.

Adèle é uma jovem que como todas as outras está confusa. Ela está perdida na amedrontadora transição entre o mundo infantil e o adulto. Todo mundo passa por isso até que quase como por milagre alguma porta se abre ou a vida nos puxa para alguma direção e de repente as coisas voltam a fazer um pouco mais de sentido. No caso de Adèle ela foi fisgada para o seu caminho pelo amor de Emma, outra mulher. E é isso, fim da polêmica. Na verdade um dos grandes trunfos do filme é tratar de questões tão universalizantes que suas particularidades (que poderiam ser vistas em tom de afronta por olhos mais conservadores ) passam desapercebidas. Todos somos Adèle e Emma. Todos crescemos, sofremos, amamos e nos decepcionamos pelos mais variados motivos e o filme disserta sobre isso com tanta naturalidade que é quase cruel.

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Não que o longa fuja dos assuntos pertinentes a ele, mas os temas são abordados com crueza, sem floreios, em caráter quase documental. Sem a intenção de chocar, o filme trata a homossexualidade com a trivialidade que ela tanto merece ter e dá esperanças de um futuro onde discussões absurdas sobre o “beijo gay na novela” não tenham mais razão para existir.

Nas três horas de duração o diretor nos apresenta à essas duas mulheres em suas intimidades e performa a mágica de fazer com que nos importemos de verdade com elas, quase como se a história estivesse se passando na casa vizinha. E é impossível ser indiferente à ela e muito menos às arrebatadoras interpretações de Léa Seydoux (Emma) e de Adèle Exarchopoulos (Adèle). Não foi à toa que o longa saiu vitorioso de Cannes.

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Não bastasse ter um roteiro excelente e interpretações cativantes, o filme também é bonito. Eu poderia dizer que a película foi muito bem executada, mas seria uma injustiça. Seria muito pouco. Então direi que a fotografia é deslumbrante e que o filme tem cenas belíssimas que ficarão impressas na minha mente para sempre, como as danças de Adèle e a doída cena no café (que fez o senhor que estava sentado ao meu lado chorar copiosamente). Favor ignorar os delírios pornográficos do diretor em certas cenas que teriam ficado melhor abandonadas na sala de edição.

Conclusão: Não sei se por ser jovem a história me tocou em níveis mais profundos ou se o filme realmente é tão poderoso assim. Mas é fato ser impossível desviar os olhos de “Azul é a Cor Mais Quente”.

P.S. Vou deixar a fetichização pornô-machista à respeito de um casal de meninas e a exploração de corpos femininos jovens no cinema para outro momento… Vamos focar na parte bonita do filme por hoje.

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Um pensamento sobre “A delicadeza de deixar de ser criança em “Azul é a Cor Mais Quente”

  1. […] impossível não lembrar do excelente “Azul é a Cor Mais Quente“, que também aborda a jornada de auto-descobrimento que se desenrola na adolescência. No […]

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