“Ele cresceu mais” – Boyhood e a contemplação do tempo que passa

Hoje eu finalmente consegui assistir ao filme “Boyhood – da Infância à Juventude” (Boyhood – 2014). Se houvesse algum prêmio no Oscar dedicado ao “achievment of the year”, Boyhood já teria arrematado a estatueta antes mesmo de ter sido lançado, afinal nas rodinhas hipsters só se falava da épica gravação que se estendeu ao longo de 12 anos idealizada por Richard Linklater.

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Como a premissa já deixa bastante claro, em Boyhood Linklater quis discursar sobre o tempo. Não sei dizer se o diretor filmou um volume muito grande de cenas ou se ele teve uma extrema sensibilidade para notar o que seria definitivo e marcante sobre o período que ele estava retratando, mas Boyhood funciona como um grande scrapbook sobre a primeira década dos anos 2000. O Game Boy, as fantasias de Harry Potter, a fase Emo, tudo aquilo que vivemos ao crescer como a primeira geração do milênio está lá. Porém mais do que delinear fases, o diretor executa um exímio trabalho em demonstrar a força aterradora da passagem do tempo para varrer tudo isso, e encontra no envelhecimento natural dos rostos do elenco o elemento estético mais poderoso para isso.

Me ausentei da sala de cinema por alguns minutos no meio da longa exibição (a fita tem duração de 2 horas e 45 minutos) e quando retornei perguntei à minha amiga o que tinha acontecido. Ela me disse que “nada, ele só cresceu mais”. No fim percebi que com essa frase simples ela conseguiu sintetizar a essência do filme. Ou melhor, do anti-filme. Boyhood não é um épico cinematográfico, não é uma demonstração da magia do cinema para transformar o comum em extraordinário. Não possui grandes arroubos de emoção, um amor que vence tudo ou a superação de grandes traumas. Boyhood é a história de uma vida que não é minimamente orquestrada pelo destino, onde não existem coincidências milagrosas, timing perfeito e que, convenhamos, não é uma aventura extraordinária. Uma vida igual a minha e a sua. Uma vida onde tempo impõe uma superação natural dos problemas, não por uma mística curativa disseminada nos ditados populares, mas sim porque ele inevitavelmente empurra as pessoas para novas situações.

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Linklater na verdade está retomando o que parece ser a sua visão da vida, de que ela não é um arranjo perfeito de acontecimentos que culminam em um grande final feliz planejado desde o início. Ela é sobre aceitar as situações da maneira como elas se apresentam e então tentar encontrar alternativas. Essa mesma visão de mundo aparece na trilogia que começou com “Antes do Amanhecer” e consagrou o diretor. Nela, dois jovens se apaixonam perdidamente e combinam de se reencontrar. Os planos falham e, mesmo sem nunca superar totalmente o sentimento despertado entre eles, diante de uma separação forçada ambos são obrigados a seguir com suas vidas de maneira independente. Em Boyhood essa tese fica explicitada para o espectador no diálogo entre Mason e seu pai, que afirma que não ficou junto com a mãe do menino porque ela não soube esperar pelo homem que ele se tornaria.

Pode-se então dizer que Boyhood é um filme de quase três horas em que não acontece absolutamente nada, mas isso seria um equívoco. O filme é uma grande oportunidade para se refletir sobre a verdade do cotidiano, que nada mais é do que uma sucessão de fases que parecem que vão durar pra sempre até que a próxima apareça. E o não conformismo com a simplicidade, que pode ter incomodado muitos espectadores (e possivelmente é uma das alavancas para as exorbitantes vendas de antidepressivos) nunca foi mais verdadeiro do que quando a mãe de Mason ao final do longa, quando o menino está saindo de casa para ir para a faculdade, afirma com pesar diante do fim: “eu achei que teria mais”.

Gabriela Negro

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Um pensamento sobre ““Ele cresceu mais” – Boyhood e a contemplação do tempo que passa

  1. […] Boyhood – indicado à Melhor Filme; Melhor Direção (Richard Linklater); Melhor Ator Coadjuvante (Ethan Hawke); Melhor Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette); Melhor Roteiro Original (Richard Linklater); Melhor Edição (Sandra Adair) […]

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