O Abutre em todos nós

De vez em quando aparece um daqueles filmes incômodos com aquele personagem ou roteiro incômodo que em sua falta de escrúpulos nos assusta porque de certa forma nos reflete. Acho justo analisar “O Abutre” (Nightcrawler – 2014) sob essa categoria.

abutre 3

Em “O Abutre”, Jake Gyllenhaal dá vida à Louis Bloom, um “sociopata funcional” que é o perfeito exemplo daquele cara inteligente que foi extremamente bem sucedido na “escola da vida” e encontrou um trabalho no qual ele é excelente apesar de não ter nenhuma educação formal no assunto. Numa noite comum em meio a pequenos golpes que sustentavam sua vida já baseada na falta de noção da diferença entre “certo” e “errado”, Louis se depara com um abutre, uma  figura que vaga pela cidade em busca de alguma tragédia para filmar e vender para os noticiários.

Louis então encontra o seu lugar no mundo ao perceber que com a pesquisa e equipamentos certos poderia facilmente entrar nesse mercado, e logo descobre que com a sua peculiar falta de empatia seria capaz de produzir justamente o material pelo qual os seus consumidores estavam sedentos.

Jake Gyllenhaal plays an unscrupulous news cameraman in the thriller Nightcrawler

A psicopatia de Louis é um mero detalhe que passa desapercebido a partir do momento em que ele produz um material que as pessoas desejam desesperadamente consumir. O tipo de imagem capturada por gente como Louis só tem valor para diretores jornalísticos como Nina (interpretada por Rene Russo) porque existe um público ávido por elas. Daí o desconforto do filme, pois ele expõe as entranhas de uma indústria que o consumidor de informação (você, eu) alimenta.

A sede de sangue de Nina e Louis não é mostrada como um traço de vilania, os personagens desfilam como sendo apenas muito competentes dentro de suas carreiras. Em uma cena muito interessante vemos o par (e, por consequência, o expectador) chegando a um êxtase quase sexual por saberem que tem em suas mãos uma notícia que vai arrebatar a cidade. O Abutre é portanto um filme bastante competente para manipular as emoções de quem o assiste. É realista, devastador e com certeza uma memorável estréia na direção para o roteirista Dan Gilroy.

O filme me remeteu à “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole – 1951) o clássico de Billy Wilder que se mantém atualizadíssimo e discute com maestria os limites do jornalismo tomando como exemplo uma manchete sensacionalista explorada à exaustão, chegando na situação limite (a mesma que se manifesta em”‘O Abutre” ) do jornal que deixa de reportar acontecimentos e passa a, de fato, produzi-los.

Ambos filmes deixam o expectador com a incômoda percepção de que o conceito de “se manter informado” na verdade sempre foi eufemismo para “estar a par da mais nova tragédia humana”. E talvez isso seja mero reflexo de uma sociedade doente que sente prazer em comer o próprio vômito.

E nessa ideia de estar vivendo uma distopia bizarra que na verdade se torna a vida real é possível que o sensacionalismo seja a forma mais honesta de jornalismo, pois ele não tenta disfarçar em nenhum momento o fato de que o noticiário seja na verdade entretenimento para uma massa que está sedenta por abastecer-se com o que a humanidade produz de mais podre.

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Um pensamento sobre “O Abutre em todos nós

  1. […] O Abutre – indicado à Melhor Roteiro Original (Dan Gilroy) […]

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