“Selma” e uma reflexão sobre racismo velado

O que faz um bom filme? Certamente uma soma de fatores. As vezes é uma bela fotografia combinada à uma trilha sonora que transportam o espectador para dentro de um mundo de sonho. As vezes o filme se destaca por um elenco de interpretações intensas ou por vezes o filme foi abençoado com um roteiro genuinamente original. Aparentemente  então para os votantes da Academia, bastou que Selma tivesse uma boa canção para receber uma vaga na disputa de melhor filme. A inexplicável ausência de “Selma” (2014) nas categorias de atuação soa então como uma concessão de cota e explicita o desconforto: o Oscar desse ano está tão branco quanto um churrasco em Atlanta nos anos 50.

selma

Normalmente interpretações biográficas garantem uma vaga na disputa de melhor ator, mas enquanto Bradley Cooper está absurdamente na disputa por interpretar um soldado letal em uma guerrra burra, David Oyelowo não foi lembrado por dar vida à uma das maiores personalidades do século XX, Martin Luther King. O afiadíssimo elenco feminino de Selma (com interpretações talvez até mais inspiradas do que a do próprio Oyelowo) foi completamente ignorado da disputa de Melhor Atriz Coadjuvante, enquanto nomes como Emma Stone, Keira Knightley e a figurinha carimbada Meryl Streep foram desnecessariamente lembrados. Muitas desculpas podem ser oferecidas para justificar o injustificável, mas o desconforto permanece.

Desconforto esse que não se limita à Selma, é um problema que atinge Hollywood em geral. Em uma indústria onde uma talentosa oferta de elenco negro raramente consegue papéis fora do eixo escravidão-gueto-direitos civis e atores orientais e étnicos são vistos como vilões glamourosos, um filme como “Êxodo – deuses e reis” (que poderia ser lembrado pelo seu encanto visual, boa direção e roteiro consistente) entra pra história como piada de mau gosto ao oferecer atores caucasianos como sendo gente do Egito. Backlash que nos transporta diretamente para os anos 60, década onde Elizabeth Taylor foi considerada casting aceitável para a rainha Cleópatra e que serviu de palco para a marcha de Selma, liderada por Martin Luther King, convertida no filme que discutiremos hoje.

Selma é um belo filme e isso é inegável. Sua presença na categoria de Melhor Filme é mais do que justa e sua ausência nas categorias de atuação (principalmente no que diz respeito às atrizes do longa) não é nada menos do que uma grande pena. No entanto, parece que faltou alguma coisa… Talvez a culpa seja minha por esperar demais, talvez a culpa seja do trailer (um dos melhores da temporada) que com seus cortes rápidos acaba por vender uma imagem eletrizante que o filme não cumpre.

Quando chega Malcolm X no local, por exemplo, parecia que a situação pegaria fogo. Mas a sua presença teve o mesmo efeito que uma figuração de luxo. Faltou trabalho, pode até ter sido sugerido que o “poder branco” escolheu Martin Luther King para ser a face pública do movimento pelos direitos civis igualitários, relegando o trabalho de Malcolm X historicamente às sombras, mas será que um público jovem com conhecimento limitado de história compreendeu isso? As vezes é melhor registrar algumas coisas, principalmente quando se trata de filmes e o seu poder de perdurar por gerações.

O filme é suficientemente gráfico para não ser fraco, porém sem exageros a ponto de não alienar o público mais jovem que necessita consumir esse material. Mas não sei. Apesar de suas belas interpretações e do roteiro forte parece que algo deu errado entre as escolhas da diretora Ava DuVernay e a sala de edição que diluiu desnecessariamente a tensão ao longo do filme. A história foi contada de um modo suficientemente eficiente a ponto de emocionar, porém poderia ter sido mais. Merecia ter sido mais.

Selma é um filme bom e bonito que merece ser visto. Mas não é a biografia definitiva do líder Luther King Jr.

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Um pensamento sobre ““Selma” e uma reflexão sobre racismo velado

  1. […] Selma – indicado à Melhor Filme e Melhor Canção Original (Glory) […]

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