O mundo então conhece um de seus grandes heróis: “O Jogo da Imitação” e a reparação de injustiças históricas

Com a notícia do perdão oficial concedido pela rainha Elizabeth II à Alan Turing no final de 2013 boa parte do público geral descobriu, chocado, a história de um homem que não só salvou o conceito de “mundo ocidental” como o conhecemos hoje como também inventou as “máquinas de Turing”, que posteriormente evoluíram até se tornarem os computadores que eu e você estamos usando nesse momento. Corrigindo essa injustiça histórica que se arrastou por quase 70 anos, chega às telas “O Jogo da Imitação” ( The Imitation Game – 2014), cujo principal mérito é apresentar ao público um homem praticamente anônimo que deveria ser exaltado como um de seus maiores heróis.

alan turning

 

Muitos, muitos e muitos filmes sobre guerra já foram feitos. Na verdade, desde que Auguste e Louis Lumiére acharam que seria bacana exibir imagens sucessivas em alta velocidade para criar a ilusão de movimento, pouca coisa gerou tanto assunto para os cineastas como o amor e a guerra. A humanidade não cansa de se exaltar reforçando o quanto foi mais brava do que os seus inimigos e isso vem desde a Ilíada perdurando até os dias de hoje. Mas aparentemente nesse meio tempo esqueceu-se de contar o pequeno detalhe de que a Segunda Guerra Mundial não se resolveu nos portos da Normandia ou nas ruas de Stalingrado, e sim numa pequena sala em Bletchley Park habitada por uma turma que gostava de fazer as cruzadinhas de jornal. Essa é a história que vemos em “O Jogo da Imitação”.

Em um esforço de guerra, foi decidido que os melhores jogadores de Sudoku especialistas em criptografia e matemáticos deveriam se reunir em uma missão ultrassecreta que visava quebrar o código da Enigma, a até então considerada indecifrável máquina por onde a Alemanha Nazista enviava suas criptografadas ordens de ataque. Então munidos apenas de seus cérebros, vemos bravos homens e mulheres, liderados por Alan Turing, trabalhando exaustivamente em um esforço de guerra conhecido somente por altos escalões da inteligência Britânica. Pelo menos até agora.

Acreditando que somente uma máquina poderia vencer outra, Turing coloca em prática as teorias que já formulava na universidade e começa a desenvolver o protótipo de uma máquina capaz de computar e processar dados. E a partir de seu ideal visionário, Turing conseguiu salvar o mundo e de quebra abrir as portas para um futuro onde as pessoas se comunicam via e-mail e fazem compras online. Outra história que o filme conta é a de que além de gênio e herói, Turing também era gay. E vitimado por leis absurdas que consideravam homossexualidade como ato criminoso, foi judicialmente obrigado à um processo de castração química e, depois de um longo período de dores terríveis e humilhação pública, cometeu suicídio em 1954, pouco antes de completar 42 anos de idade.

O filme não chega a ser um manifesto à igualdade prática e jurídica de direitos para a população LGBT, já que a parte referente ao trágico fim da vida de Turin é apresentada no epílogo da história, mas funciona como um bom lembrete do quão pobre é julgar alguém por características completamente alheias à suas capacidades, caráter e participação pública e que, convenhamos, não interfere absolutamente em nada na vida de mais ninguém. A história de Turin é um importante lembrete da força que um preconceito irracional e injustificável, fruto de ódio e ignorância, tem para destruir a vida de alguém. Turin morreu, injustamente, como um criminoso. Mas sua memória vive na história como a figura de um herói.

TIG

 

O bom elenco, encabeçado pela sempre carismática performance de Benedict Cumberbatch, aumenta a classe do filme, que é emocionante como o gênero pede porém sem nunca desviar o foco do elegante porte inglês. Apesar de o filme ter direção do norueguês Morten Tyldum ele é, por excelência, muito britânico. Isso quer dizer que em termos técnicos ele cai em todos aqueles clichês de produções britânicas que podem até ser repetitivos mas que possuem um público ávido por continuar os consumindo. Esses motivos tornam questionável a presença do longa como candidato à melhor direção nas premiações, porém por contar ao grande público uma história de extrema relevância que foi relegada até então às sombras, sua presença na competição pela categoria principal é mais do que bem vinda.

Que a popularidade do filme siga crescendo e cada vez mais pessoas conheçam a incrível história de Alan Turin e dos demais gênios de Bletchley Park.

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Um pensamento sobre “O mundo então conhece um de seus grandes heróis: “O Jogo da Imitação” e a reparação de injustiças históricas

  1. […] O Jogo da Imitação – indicado à Melhor Filme; Melhor Direção (Morten Tyldum); Melhor Ator (Benedict Cumberbatch); Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley); Melhor Roteiro Adaptado (Graham Moore); Melhor Edição (William Goldenberg); Melhor Trilha Sonora (Alexandre Desplat); Melhor Direção de Arte (Maria Djurkovic eTatiana Macdonald) […]

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