O universo paralelo de “Dois dias, uma noite”

Em “Dois dias, uma noite” (Deux jours, une nuit – 2014) vemos uma talentosa Marion Cotillard tentando nos convencer com sua interpretação sincera e humana em um roteiro que, honestamente, não dá muita margem para isso.

O argumento do filme pode até ser interessante – uma mulher em recuperação de depressão deseja retornar ao trabalho, porém descobre que foi realizada uma votação onde os demais funcionários da fábrica desejaram obter seu bônus de fim de ano ao invés de permitir a reintegração da funcionária afastada. Cabe a ela então a tentativa quase impossível de persuadí-los a abrir mão de uma grande soma de dinheiro à favor do emprego dela.

marion

 

No entanto, o  que poderia ser uma complexa trama sobre o papel prático do altruísmo na vida humana se perde em uma sucessão de situações inverossímeis, a começar pelo cruel empregador (com vocação mais para “Jogos Mortais” do que para a industria, obviamente) que é incapaz de tomar suas próprias decisões sobre sua fábrica e joga em seus funcionários a bomba de decidirem à favor de sí ou contra uma mulher fragilizada.

Partindo dessa situação que já não tem muita conexão com a realidade, vemos então um desfile de momentos de muito chororô, gritaria e salve-se quem puder que revelam ao filme – que pretendia ser um drama sério – sua verdadeira vocação à caricatura. Tivesse sido essa vocação bem aproveitada, o filme poderia ter sido uma eficiente dramédia, mas não foi o caso. As cenas onde o roteiro se permite escorregar para a comicidade da situação soam como meros alívios ao drama, quando na verdade tinham potencial para serem a melhor característica do longa que não chega a ser ruim, mas sem dúvidas é fraco.

A interpretação sempre eficiente de Marion Cotillard como uma mulher que se esforça para convencer a todos de sua suposta cura quando nem mesmo ela acredita de fato nisso merece sim, atenção. Mas é um grande mistério para mim que ela tenha sido indicada ao Oscar por esse filme enquanto seu outro longa do ano, o excelente “Era uma vez em Nova York” (The Immigrant – 2014) tenha sido completamente ignorado pelos principais eventos da temporada de premiações. Difícil de entender…

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Um pensamento sobre “O universo paralelo de “Dois dias, uma noite”

  1. […] Dois dias, uma noite – indicado à Melhor Atriz (Marion Cotillard) […]

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