Try (Just A Little Bit Harder) – a perfeição que não cai do céu com Whiplash

“Whiplash: Em Busca da Perfeição” (Whiplash – 2014) não apenas disserta sobre perfeição técnica como também beira esse objetivo. O melhor filme da Award Season além de ser uma verdadeira aula sobre como se fazer cinema é a síntese de várias emoções que circundam veladamente a produção artística.

O filme – escrito e dirigido por Damien Chazelle – conta com várias ideias bastante radicais a respeito da Arte e tinha tudo para ser tremendamente polêmico… mas foi tão bem executado que os espectadores, arrebatados, podem até ter comprado o debate do filme e refletido sobre ele mais tarde, mas antes se deixaram elevar para um estado de êxtase que só o Cinema em sua mais perfeita forma e execução é capaz de proporcionar.

whiplash 1

O roteiro nos apresenta a Andrew Neiman, interpretado lindamente por Miles Teller, um estudante de música que diferentemente da maior parte de seus pares não se contenta com um resultado medíocre. Neiman sabe que sua existência física é mero receptáculo para uma Arte que tem poder para transcender as barreiras do tempo e da morte, e está inteiramente disposto a abrir mão de qualquer outro tipo de desejo secundário para atingir o topo.

E então, tal qual o tubarão no clássico filme de Spielberg, somos apresentados à Terence Fletcher (que recebeu uma ótima e já premiada interpretação de J.K Simmons), aquele que sabemos que será a peça mais importante do quebra-cabeça porém temos que primeiro espreitar, até que sua imponente presença então nos encontre. Fletcher é um lendário professor, a quem Neiman deseja desesperadamente chamar de mestre, porém para isso precisa antes ser digno de atrair sua atenção. Entre aparições rápidas e silhuetas delineadas nas sombras descobrimos que não há nada de fácil a respeito de se relacionar com Fletcher, até que ele puxa Neiman para sua banda e assim nos convida a conhecer seu universo.

whiplash 3

Fletcher não é considerado o melhor por simplesmente aceitar qualquer porcaria mediana que é oferecida a ele. E é aí então que sobra espaço para a polêmica. Com os métodos “duvidosos” do professor, o filme tem a coragem de falar para toda uma geração de mães superprotetoras e leitoras de auto-ajuda que os filhos delas não são especiais. Que não é porque você escreve/desenha/toca qualquer porcaria que você é um grande artista. Que a perpetuação da auto-estima exagerada e da falsa noção de que todo mundo pode e deve fazer arte não gera uma sociedade em comunhão onde todos vivem alegres e em paz, e sim uma população que já não tem mais discernimento entre o bom e o ruim simplesmente porque está anestesiada pela enorme massa de mediocridade que a circunda.

Terence Fletcher não é um regente de projeto social que permite que suas crianças sejam aplaudidas mesmo tendo apresentado execuções sofríveis, simplesmente por terem tido a coragem de estar ali. Sem prêmio de consolação, sem troféu de participação, a gloria só pode mesmo ser obtida através do extremo esforço.

whiplash 2

Em um dos mais belos encontros entre pupilo e mestre, permeado é claro por muito ódio, gritaria e desespero, vemos então que Neiman precisa de Fletcher, assim como Fletcher de Neiman. Um é a resposta definitiva para a busca do outro e não há esforço no mundo que seja considerado exagerado para se obter isso.

O filme é de um raro primo técnico. Edição, direção, roteiro, trilha sonora e atuação, todos combinados com o objetivo de tornar a obsessão de seus protagonistas em um espetáculo palpável capaz de contagiar a todos na sala de exibição. Se na vida real existem muitos poucos dispostos a chegar lucidamente no limite de esforço de Andrew, na sala de cinema pelo menos não houve ninguém que não vibrasse a cada compasso executado com perfeição por ele, a troco de muito sangue e suor.

Whiplash é um filme de duas horas que parece se passar em 40 minutos e merece ser visto e revisto muitas vezes.

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Um pensamento sobre “Try (Just A Little Bit Harder) – a perfeição que não cai do céu com Whiplash

  1. […] Whiplash: Em Busca da Perfeição – indicado a Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (J. K. Simmons); Melhor Roteiro Adaptado (Damien Chazelle); Melhor Edição (Tom Cross); Melhor Mixagem de Som (Craig Mann, Ben Wilkins e Thomas Curley) […]

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