Aquele filme do neném de plástico…

“Sniper Americano” (American Sniper – 2014) é um filme que pode muito bem ser perdido. O novo longa de Clint Eastwood não tenta disfarçar em nenhum momento que é propaganda de um “way of life” que a gente prefere fingir que não existe na América.

Exaltando o que de pior existe na parte superior do continente, vemos uma direção que nos manipula desde o princípio para distorcer e suavizar a realidade que está ali sendo apresentada. O protagonista, o suposto herói interpretado em mais uma performance insossa de Bradley Cooper, aprendeu a caçar enquanto ainda menino. Porque matar deve ser mesmo um esporte valoroso para ser transmitido para uma criança e não é errado, afinal todo mundo foi pra Igreja depois disso. O pai do protagonista fala que não vai criar nenhum filho covarde, mas também não valentão. A violência é exaltada como a virtude máxima quando é feita em nome da defesa de um inocente.  O que seria um discurso até que muito bonito se o pai grande e forte não estivesse tirando o cinto na mesa de jantar para ameaçar seus filhos crianças pequenas.

O protagonista, agressivo, muito agressivo, vê na televisão a notícia de um atentado terrorista. Tivesse ele ficado indignado com a barbarie do ato, tudo bem, o problema é que ele vê ali sua verdadeira vocação: ele sabe que está predestinado a matar essa gente toda. E assim então surge o sniper mais letal da história dos EUA. Assustador.

sniper

 

O problema aqui é que não se trata de mera guerra ao terrorismo. Não é uma cidade tal qual Stalingrado, feita de palco de batalha por uma população que se defendia de um exército invasor. Se trata de uma cidade feita de refém na mão de dois exércitos rivais, e ambos tratam toda a população civil basicamente que nem lixo. Se ficamos extremamente assustados com o procedimento padrão do exército Americano de entrar em residências civis e simplesmente… bater e ofender todo mundo sem nem deixar as pessoas falarem, o filme nos lembra que os inimigos são ainda piores, e mostra a cena de um terrorista enfiando uma broca na cabeça de uma criança. Não há dúvidas de que a guerra ao terror é necessária. Mas e o terror que a presença dos Americanos impôs àquelas pessoas? Eles não podiam reservar a brutalidade para a batalha, tinham que submeter civis a esse tratamento também?

Não existe véu inocente em “Sniper Americano”. Homens, mulheres e crianças, todos ali retratados pelo filme são de alguma forma “mal intencionados”. Sejam mães que dão bombas na mão de seus filhos, seja um homem “inocente” que cobra propina para delatar um criminoso ou até mesmo uma hospitaleira família que esconde armas em casa. Na distopia do filme, não existe espaço para retratar alguém diferente sem que o mesmo seja visto como inimigo.

É de conhecimento geral que os grupos terroristas são uma parcela muito pequena da comunidade islâmica que causa mais dano para a população local do que para os ocidentais e precisam ser impedidos. Mas para que fazer filme desses pra fomentar um preconceito idiota que já é gigante conta todos os muçulmanos e culpabiliza uma população geral pela barbárie de poucos?

Não bastasse que o filme tivesse esse argumento terrível e com grande potencial para o caos, ele também tinha que ser de uma idioticidade técnica chocante. Diante do espetáculo de barbárie que estamos assistindo, o filme sente a necessidade de nos lembrar o tempo todo de quem são “os bonzinhos” e coloca soldados sorridentes para repetir frases como “bom trabalho! Você é um herói!”.  Ao mesmo tempo em que ouvimos o tempo todo que eles são uma elite militar, no climax do filme esses talentosos soldados descobrem que o lado inimigo também tem um sniper. Que na verdade estava lá o tempo todo. E eles demoraram anos para cogitar essa hipótese. Ok.

E o filme ainda foi palco da maior falha técnica do cinema moderno, o protagonista desse post, o infame neném de plástico.  Se achando muito espertão, Bradley Cooper não apenas segurou o tal neném mas ainda foi audacioso ao tentar simular “movimentos” movendo os bracinhos do boneco, o que naturalmente só aumentou a sensação de estar assistindo à algum tipo de filme paródia.

Seria uma manobra subversiva de Clint Eastwood para tentar zombar de seu próprio filme em um esforço metalinguístico de humor irônico? Não foi o caso. Foi apenas um erro de cálculo. A produção do filme argumentou na época que o bebê humano real adoeceu e tiveram que improvisar com o boneco de última hora. Mas até as crianças que montam a encenação do presépio de Natal na sua igreja sabem que ao se trabalhar com um boneco é prática usar uma coberta para não expor as partes plásticas, não? O pior é que a cena em questão poderia ter sido muito bem rodada só envolvendo os atores, não havia necessidade de uma criança.

Um erro inaceitável em Hollywood. Ainda mais em um multimilionário filme de guerra que teve a ousadia de ser lembrado durante a Award Season.

Enfim, um bom filme para se perder. Na verdade não é assustador que um filme tão tenebroso esteja sendo tão exaltado? Tempos sinistros esses em que vivemos…

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Um pensamento sobre “Aquele filme do neném de plástico…

  1. […] Sniper Americano – indicado à Melhor Filme; Melhor Ator (hahahaha) (Bradley Cooper); Melhor Roteiro Adaptado (Jason Hall); Melhor Edição (Joel Cox e Gary Roach); Melhor Mixagem de Som (John T. Reitz, Gregg Rudloff e Walt Martin); Melhor Edição de Som (Alan Robert Murray e Bub Asman) […]

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