O Pantone inteiro de tons de cinza

Pois enfim fui ver o tal “Cinquenta Tons de Cinza” (Fifty Shades of Grey – 2015). O filme que se originou da série de livros que até me enganou com esse nome bacanérrimo – pra quem não sabe, “shades of grey” é uma expressão utilizada em inglês quando se quer dizer que as vezes as coisas não são tão radicais, preto no branco, etc. – mas que na verdade é tudo uma grande bobagem.

50 shades

Não contente em ter cinza no título e no nome do cara, o filme nos lembra constantemente do que estamos assistindo porque TUDO é cinza. Tudo. As gravatas do Sr. Grey, a casa do Sr. Grey e até a bolsa Prada da mamãe Grey, nada foge da monótona paleta de cores frias. O filme, que mais parece um especial de duas horas de algum programa de decoração de interiores, passeia pelo closet, pela casa e pelo escritório do Sr. Grey e nos deixa chocados de que todo esse ambiente de “sala limpa” e rigor digno de T.O.C seja cenário para o pornozinho pop dessa geração.

A didática do filme não se resume à estética, tudo ali é super explicadinho, desde o controle contraceptivo até cúmulos de breguice por parte da direção, que não se cansa de nos tratar como idiotas e achou uma boa idéia, por exemplo, expressar a intenção sexual da protagonista ao fazê-la ficar mordendo um lápis escrito “GREY”.

anastasia grey

Na contramão do rigor estético, surge o roteiro confusíssimo que não sabe nos entrega uma comédia romântica, um drama romântico ou um soft-porn. Não é de se espantar que a protagonista Anastasia esteja confusa! O plot caótico, no entanto, funciona para tirar a culpa das costas da tonta Ana, que evidentemente está perdida diante de um Mr. Grey que não tem a menor idéia do que está fazendo nessa vida.

Mr. Grey a convida pra um café onde “rompe” com o relacionamento só pra depois mandar presentes e perseguir a guria. Ele dorme com a menina duas noites em sequência para depois dizer que “não dorme ao lado de ninguém”. Ele não faz romance, mas presenteia com livrinho de sebo. Enfim, um chato. O tal quarto de “atividades” do rapaz pode até ser cuidadosamente planejado, mas o ato mesmo só rola depois de muita burocracia, evidenciando que para a turma agora o que importa mesmo é o visual, a vontade e o impulso são secundários.

50 shades 2

Tudo isso me dá nostalgia dos saudosos filmes ditos “picantes”, quando as pessoas ainda não tinham começado a ter vergonha de sexo e você podia ver, por exemplo, uma garçonete quarentona interpretada por Susan Sarandon seduzindo um yuppie James Spader no auge de sua juventude, em um afeto despudoradamente sexual no draminha novelesco “White Palace” (1990). O mesmo James Spader protagonizou ao lado de Maggie Gyllenhaal “Secretary” (2002), comédia romântica alternativa que vem sido (injustamente) comparada exaustivamente à “Cinquenta Tons de Cinza” por também mostrar um relacionamento “fetichista”.

É na grande diferença entre “Secretary” e “Fifty Shades” que, ao meu ver, reside o elemento mais complicado do último. Enquanto a secretária de Maggie Gyllenhaal discursa no final do filme que “finalmente encontrou alguém para brincar com ela” o “fetiche” de 50 tons é expresso em uma evidente falta de compreensão de seu significado.

secretary

Quando toma conhecimento dos gostos peculiares de Mr. Grey, Anastasia questiona então por que faria isso. E ele prontamente responde que ela faria isso para satisfazê-lo. Ou seja, nenhuma das partes envolvidas deveria estar praticando esse tipo de atividade. Mr. Grey por não entender que o prazer do ato sexual deve ser uma via de mão dupla e Ana porque não curte esse rolê e sequer compreende o porquê alguém gostaria disso.

Mais fácil seria se os dois tomassem seus rumos e procurassem outras pessoas mais compatíveis e o filme tivesse uns 20 minutos a mais pra resolver essa situação e acabasse por ali mesmo. Mas não. Pelo visto estaremos presos em uma série onde duas pessoas evidentemente incompatíveis vão entrar num cabo de guerra onde um vai tentar mudar o outro em nome de um relacionamento bem desnecessário…

Agora, em termos de fenômeno, eu pessoalmente acho bem complicada toda essa sexualização exagerada em torno de Christian Grey. Me parece que chamar o cara de “dominador” é só uma nuvem de fumaça pra esconder que o domínio que ele exerce na vida da menina não se resume à cama. O cara é invasivo, possessivo, stalker e extremamente controlador. Me assusta muito que esse perfil seja vendido como o “modelo de desejo” atual e que legiões de menininhas fiquem suspirando por um cara que se mostra extremamente ciumento com uma menina que ele nem conhece e que faz coisas tipo… vender o carro dela. Pegada forte nenhuma justifica essa sandice toda.

50 shades 3

Ah claro, não podemos também deixar de mencionar a problemática do Sr. Grey, que não poderia apenas curtir um sadomasoquismo, tem que ter todo um passado traumático para justificar esse “desvio”. Passado esse que deve ser desenvolvido nos próximos episódios da franquia e que, admito, não tenho como estar menos interessada em conhecer. Aparentemente o soft-bondage que fez com que os livros voassem das prateleiras será desenvolvido como se fosse um problema, uma doença, o resultado de um dano psicológico. Nunca um fetiche soou tão chato.

Mas o filme é tão brega que tem seus momentos de diversão, como as aeronaves dignas de novela mexicana e a ridiculamente cafona cena onde Mr. Grey toca seu piano de madrugada… nem de longe tão legal como a cena onde Richard Gere faz a mesmíssima coisa em “Uma Linda Mulher”, porque naquela vez foi sexy. Nessa foi só uó.

Muito superior ao livro, chatíssimo e muito mais problemático, que é narrado por uma Ana fútil e idiota que parece fazer de tudo só para não perder um “partidão”, o filme até que faz sentido como uma comédia romântica onde uma menina se encanta com um cara que contra todas as probabilidades também se interessou por ela… mas que se revelou como sendo só mais um pro time dos perturbados.

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2 pensamentos sobre “O Pantone inteiro de tons de cinza

  1. Eu realmente ainda não vi ninguém falando bem desse filme. Tive esperanças quando vi o trailer pois me vendeu bem todo o (falso) clima e tensão que teria. Pelo visto, ainda é melhor assistir o Cine Privé nas madrugadas pois esse não tem enganação pois já sabem o que esperar.

    • Gabriela N. disse:

      Goldem, meu querido, vc chegou a ver o filme?
      Nossa e sim, não poderia concordar mais! Parece que a galera desaprendeu a fazer softcore, sabe? Se for pra oferecer breguice com sexo, se joga, né? hahahah Cine Privé, com certeza, é um entretenimento bem mais honesto!

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