Com pequenos atos cria-se alicerce para um monstro – Leviatã e a corrupção como instituição

“Leviatã” (Leviafan – 2014) é daqueles filmes bons para quando a vida parece ser muito difícil porque nos deixa com a clara certeza de que tudo poderia ser infinitamente pior. O representante russo na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro” usa como alegoria a história de um homem comum para retratar a impotência de um indivíduo diante de um Estado corrupto.

leviathan 1

O leviatã do título pode até fazer referência à uma besta de grandes proporções e poderes que aparece inclusive na Bíblia, no livro de Jó. Mas enquanto essa história reforça a prova de fé como um compromisso entre um homem e seu Deus misericordioso em quem ele pode confiar, Kolya (Aleksey Serebryakov) não tem escolha além de conformar-se como joguete de um poder político que não lhe representa ou serve mas na verdade o possui, indicando que apesar de sofredor como Jó, Kolya é vítima do Leviatã de Thomas Hobbes.

Hobbes define que os homens se submetem ao poder de um Estado, mesmo que esse os prive de exercerem plenamente seus direitos, a fim de evitar a guerra de todos contra todos. Esse Estado se torna por definição forte e poderoso e, quando nas mãos de uma liderança egoísta como a retratada no filme, se revela como uma tirania onde poucos controlam o destino de muitos.

leviathan 3

O filme pode até apresentar um rico drama familiar, mas o destaque sai do plano privado e vai para o público. A corrupção está lá desde o princípio, apresentada em diferentes níveis de tolerância. Quando ela, no entanto, se mostra por demais arbitrária e praticamente implora por medidas drásticas para exterminá-la, as vítima descobrem que já é tarde demais. Não existem meios para se controlar a expressão em grande escala de um fenômeno que aparece com tanta normalidade no cotidiano das pessoas e cabe ao espectador contemplar o estrago fruto de séculos de “favores”, “jogos de poder” e “jeitinhos”. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Rico em simbologia e valor por retratar a corrupção institucionalizada russa, cabe apenas a ressalva de que talvez a duração tenha sido um pouco exagerada. O longa possui duas horas e meia, mas vale o tempo gasto por revelar-se como um exercício de análise da nossa própria oligarquia Made in Brazil.

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  1. […] Leviatã – indicado à Melhor Filme Estrangeiro […]

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