CAÇADORES DA ARCA PERDIDA – dentro do poço das almas!

O meu post sobre “Caçadores da Arca Perdida” (Raiders of the Lost Ark – 1981) rendeu tanta conversa que fiquei com vontade de mergulhar no Poço das Almas e aprofundar alguns aspectos dessa obra que considero tão especial.

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A trunfo do filme está relacionado com o fato dele ser voltado para toda a família. Enquanto as crianças absorvem a mensagem geral sobre ter coragem e ser heróico, os adultos podem aproveitar muitas outras nuances. Assisti ao filme no cinema com um amigo que nunca tinha o visto, e ele considerou o longa genuinamente divertido, porém maniqueísta demais.  Entendo a opinião dele – que se torna difícil de contestar quando os vilões são a plana e puramente perversa ameaça nazista – mas devo dizer que não concordo. Com isso em mente, escrevo esse post.

“Caçadores da Arca Perdida” pode até ser a aventura concebida para estabelecer o personagem (e ícone) Indiana Jones no cinema, mas é muito mais do que isso. Sem a presença de Jones no título do longa, sobra espaço para nos questionarmos sobre os demais caçadores envolvidos na empreitada. Enquanto os nazistas são apresentados como uma massa amorfa vilanesca cujo interesse na Arca é puramente bélico, os demais personagens são trabalhados com mais requinte.

Marion Ravenwood

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Marion, por exemplo, é uma personagem muito interessante. Mais do que ser a eterna namoradinha de Indy, fica claro que sua principal função no longa não é essa. Ela pode até jogar do lado dos “mocinhos”, mas não tem o comportamento esperado de um deles. Se no começo ela é apresentada como esperta e traiçoeira – a cena deixa claro que ela não tinha a menor intenção de entregar o medalhão para Jones ou para quem quer que fosse, ela muito provavelmente fugiria com o dinheiro que aceitou – quando a situação foge de seu controle ela entra na busca pela Arca ao lado de Jones muito mais pela própria segurança do que para defender um conjunto de princípios.

Ela é independente e joga em benefício próprio. Mais do que ser uma assistente do herói, Marion quer voltar a se sentir segura, além de não desperdiçar a oportunidade de continuar o trabalho que seu pai desenvolveu durante toda a sua vida.

Sallah

Sallah, talvez, seja o personagem mais simples. Do time dos heróis, ele é o mais certinho. Ele representa o elemento familiar do filme, o sujeito que tem filhos, é leal aos amigos e rege sua vida de acordo com o que acredita ser certo. Ele não deixa de ter as suas camadas se pensarmos que trabalha contratado pela escavação nazista. Será que ele não teve meios para recusar? De qualquer forma, Sallah não hesita em trais seus “empregadores” para ajudar seu amigo Jones, o que prova que as leis que regem sua vida não são de ordem burocrática, e sim moral.

Dr. René Belloq

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Belloq é o personagens mais interessante do filme. Se assemelha em estrutura à Marion, afinal também está na busca pela Arca por motivos pessoais. Ele não tem interesses políticos, simplesmente se filia ao lado que acredita ter melhores chances de conseguir. Assim como Jones, sua curiosidade com relação à Arca é acadêmica, a diferença entre os dois é que ele não tem pudores em se filiar aos “malvados” para atingir isso. 

Outro ponto importante de divergência entre Jones e Belloq é o fato de o primeiro acreditar que as relíquias são de propriedade “coletiva” e deveriam estar acessíveis em museus, enquanto Belloq simplesmente acredita em vendê-las para quem pagar mais. O que não muda é o fato de ambos viverem dos lucros da pilhagem de artefatos que serão submetidos à “civilização ocidental”, atitude invasiva muito comum até a época em que se passa o filme, se nos lembrarmos que era tradicional tomar posse de relíquias tidas como nativas e exóticas durante as expansões imperialistas européias. Afinal, britânico nenhum foi acusado de ser “ladrão de tumbas”, eles eram apenas… Arqueólogos.

Esse ponto é interessante de se observar, principalmente se levarmos em conta que o plot do filme (e dos demais filmes da série) se desenvolve também para a mensagem de que talvez seja melhor deixar algumas coisas no seu lugar de origem, aonde elas pertencem. Essa mensagem anti-imperialista talvez seja a camada mais profunda do filme, que será retomada no desfecho que, extremamente pessimista, deixa claro não existir nada de inocente no acumulo de poder. E afinal, é legítimo dizer que as potências tem diretos sobre os tesouros do mundo?

Indiana Jones

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O protagonismo Jones é inquestionável desde o primeiro vislumbre que temos dele. Enquanto todos os outros personagens são apresentados sem pudores, a imagem de Jones é construída na base do mistério. Seu vulto é o primeiro a aparecer, mas seu rosto é o último, deixando claro que o personagem, além de ser o mais importante em cena, não será tão fácil assim de se desvendar. A experiente direção de Spielberg se vale de todos os recursos que tem para mostrar que aquela é a presença do herói e que ele será um ícone.

Marcado pela ação, o personagem finalmente revela o rosto quando é preciso tomar alguma atitude, e esse sentimento prevalece durante todo o filme. Jones é o malandro, o cara do improviso, a pessoa que você chama quando precisa resolver alguma coisa porque ele dará um jeito. Enquanto tudo isso contribui imensamente para o lado cômico e aventureiro do personagem, também evidencia a sua falta de vocação para ser mocinho. Jones não nasceu herói, ele pode até estar do lado “do bem”, mas não é “bonzinho”.

Se formos analisar o personagem ao longo da série, observamos que ele sempre está em conflito consigo mesmo. Ele não consegue se comprometer com nada (em termos de família, relacionamentos, fé…) e talvez o fato de precisar estar constantemente em movimento seja um modo de fugir de qualquer reflexão mais profunda. Apesar de altamente inteligente, talvez no fundo Jones não pense muito sobre as coisas.

A presença de antagonistas inquestionavelmente maus se justifica não para simplificar a trama, mas para que não nos questionemos que Indy, aquele cara que não perde tempo nenhum com bom-mocismos e não hesita em atirar para matar, seja de fato o herói da história.

Enquanto esse personagem complexo se mostrou a fórmula ideal para liderar frenéticas e divertidas aventuras, a figura do “anti-herói” também traz a seguinte mensagem: não importa quem você seja ou o que você já tenha feito, todo mundo pode ser herói a partir do momento em que decide fazer a coisa certa.

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7 pensamentos sobre “CAÇADORES DA ARCA PERDIDA – dentro do poço das almas!

  1. […] animação, um produto que antes era tido como exclusivamente infantil. Mas a lógica básica de um bom filme família é que ele tenha camadas, onde a mensagem superficial seja captada por todos e talvez os mais […]

  2. Ae! Sabia que dava pra tirar mais desse filme.
    Não lembro se comentei no outro, mas uma das coisas que melhor provam q o Indy não é “mocinho perfeito” é essa coisa imperialista de ir atrás dos tesouros “exóticos” e trazer pro Ocidente. Meu problema com isso é que talvez estejamos sendo anacrônicos: Como você disse, era um pensamento comum na época… mas não tira o fato de que não é, digamos, “correto”.

    Mas eu tava pensando em outra coisa, também (só pra forçar você a fazer mais posts, hahahaha).
    A gente conhece Indiana Jones, sabemos como a franquia funciona… HOJE. Mas a cena dos espíritos e dos caras derretendo, não é meio que… do nada? Pensando no contexto daquele filme isoladamente: o que nos prepara pro fato de que existe, de fato, MÁGICA nesse universo? No máximo, a luz do sol refletida no cajado, que causa um clarão meio sobrenatural (e ensina a localização da Arca). Mas, de resto, é tudo truque e armadilha prática (e foi como eu entendi a cena que citei, na hora que vi – não como mágica). Será que dá pra apontar isso como inconsistência?

    • Gabriela N. disse:

      Pois é cara, é tão errado isso! E esse sentimento perdurou até recentemente, por exemplo na escola vc aprende que “quando os arqueólogos invadiram a tumba ela havia sido saqueada” e dude… vcs também tão “saqueando” a tumba, só que com procedimentos e técnicas burocráticas para oficializar o movimento… MAS a série já problematiza isso (certamente de modo planejado pela direção e roteiro) afinal o próprio plot tem sempre como resultado “deixar as coisas no lugar delas”.

      Agora, sobre os poderes da Arca…

      Então, a franquia do Indy sempre teve essa permissão para o misticismo. Ele sempre se infiltrou com seus fenômenos “inexplicáveis” para quebrar as perninhas do cético Dr. Jones, e acho que faz parte da graça do negócio. Mas analisando o primeiro filme individualmente, não, eu não acho gratuito, porque desde o primeiro momento sabemos que a Arca é “something”.
      Essa ideia não só é reforçada pela brilhante orquestração do John Williams – que a cada menção da arca insere aquele tema fantasmagórico/misterioso/sobrenatural (da mesma forma que toda vez que Indy fala o nome da Marion ele insere algumas notas do tema romântico) (agora em off eu AMO John Williams e acho esse filme um dos melhores trabalhos dele, o cara é brilhante) – mas também porque desde o primeiro momento a Arca é tratada como um artefato religioso.

      Na primeira cena já dizem que os nazistas querem a arca por acreditar que ela teria poderes. Tem até aquela cena didática quando perguntam para Jones o que são os raios saindo da Arca desenhada e ele diz que “talvez o poder de Deus”. Belloq acredita nas propriedades místicas da Arca e quer vê-la por isso. Sallah TAMBÉM acredita no misticismo da Arca, e inclusive afirma que o fato de a cidade ter sido engolida por areia é prova de que não deveriam mexer com ela. Jones a trata como um artefato religioso de profundo interesse histórico (apesar de não ser um homem religioso). Ou seja, as propriedades sobrenaturais do artefato são mencionadas/questionadas várias vezes durante o filme, em diálogos sempre pontuados pela trilha sonora mística que basicamente entrega que apesar do assunto estar sendo debatido, a verdade acerca dele não dá tanta margem para dúvida.

      Jones é cético (e mesmo com todas as experiências místicas que vivenciou, permanece dessa forma até que o filme 3 finalmente o obriga a se questionar sobre isso), mas todos os seus filmes trabalham com religiões gigantes. No primeiro tem a mitologia judaica, no segundo a hindu e no terceiro a cristã. Além de que, como Arqueólogo, o personagem deve invariavelmente ter estudado Antropologia, uma ciência que está FORTEMENTE relacionada com o estudo da religião e do mito.Ou seja, o cara tem profundo contato acadêmico com esses assuntos, e mesmo que os filmes não trabalhassem com mitologias tão consagradas, ainda assim vc teria um protagonista preparado pra lidar com esse tipo de questão (o ceticismo dele ou não não tem influência nenhuma no estudo metodológico das religiões). Basicamente estou tentando dizer que um filme protagonizado por um Arqueólogo/Antropólogo invariavelmente esbarraria em mitologia.

      A cena da Arca deve sim ser tratada como mágica, não tem margem pra duvidar disso. Na vida real cabe a cada um se questionar sobre suas próprias crenças (e isso não é assunto pra agora, mesmo porque não tenho muita certeza que a saga tenha interesse em levantar essa discussão para a sociedade, acho que trabalham com essa problemática de modo mais interno, como desenvolvimento do protagonista), mas fica bastante claro que dentro do universo criado pelo filme a magia É REAL e discordo de você que ela tenha sido jogada gratuitamente no final, acho que o filme inteiro deixa pistas do que está por vir.

      • Não, não, não… eu não quis dizer que ela foi “jogada gratuitamente”, só estava questionando se esse elemento do universo Indiana Jones já tinha sido preparado ao longo do filme. Porque, quando assisti, (já sabendo que ia rolar aquilo) eu esperava “dicas”, demonstrações de existir o sobrenatural ao longo do filme, que eu não vi.

        MAS, sim, tudo isso que você falou é bem válido, especialmente a questão da trilha sonora, que prepara pelo menos a atmosfera pra que entremos nisso posteriormente. E o próprio fato de ser questionada a existência desses poderes ao longo do filme já é uma preparação, mesmo.

        Portanto, estou: errado. hehehehe

      • Gabriela N. disse:

        Poxa, não diria “errado”, acho que o filme está lá pra ser lido, cada leitura é válida, não? :)

  3. […] Update: Escrevi também uma análise mais aprofundada do longa em Caçadores da Arca perdida – dentro do Poço das Almas […]

    • Fã_Cinema disse:

      Existiram sinais do que «estava pra vir» sim. Recordo da arca, depois de embalada e no porão do navio, começar a escurecer na madeira. E um rato próximo se afastar ou se assustar, para depois aparecer morto. Ou é impressão? E tem também a história, o motivo que levou os antigos a ocultar a arca e não revelar a sua localização.

      Acho que analizam demais o filme, focando-se em aspectos que, bom, interessa-vos mais por um motivo qualquer. Indiana Jones já era uma banda desenhada antes de virar filme. As suas características e mistério já estavam lá.

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