Arquivo da categoria: Arte

A crítica pungente (mas com carinho) de “Que Horas Ela Volta”

Não resta dúvidas de que o queridinho do cinema nacional nesse ano é “Que Horas Ela Volta?” (2015).  E o cargo é mais do que merecido. O longa de Anna Muylaert é um afetuoso – e nem por isso menos poderoso – retrato do estranho Downton Abbey brasileiro que acontece entre patrões e suas empregadas.

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Renovando o check in no Hotel Budapeste

Quando começamos a ver o filme, damos de cara com Wes Anderson. Em forma e conteúdo, vemos um gênio nos conduzindo por mais um de seus contos pitorescos onde seus inconfundíveis humor e plástica farão o serviço de nos contagiar mais uma vez com uma história improvável. E com os primeiros acordes da linda trilha sonora de Alexandre Desplat somos então apresentados à doçura de “O Grande Hotel Budapeste” (The Grand Budapest Hotel – 2014).

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Localizado em uma imaginária república européia, o Hotel ganha liberdade total para existir dentro do universo de sonho de Wes Anderson, onde as situações ali imaginadas podem até ter paralelo com eventos reais, porém sem ter que comprometer-se com nenhuma regra. E assim o roteiro que mistura guerra, crime, romance e comédia pode se desenrolar de modo a entreter o espectador em um modo muito genuíno de se fazer Cinema.

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Try (Just A Little Bit Harder) – a perfeição que não cai do céu com Whiplash

“Whiplash: Em Busca da Perfeição” (Whiplash – 2014) não apenas disserta sobre perfeição técnica como também beira esse objetivo. O melhor filme da Award Season além de ser uma verdadeira aula sobre como se fazer cinema é a síntese de várias emoções que circundam veladamente a produção artística.

O filme – escrito e dirigido por Damien Chazelle – conta com várias ideias bastante radicais a respeito da Arte e tinha tudo para ser tremendamente polêmico… mas foi tão bem executado que os espectadores, arrebatados, podem até ter comprado o debate do filme e refletido sobre ele mais tarde, mas antes se deixaram elevar para um estado de êxtase que só o Cinema em sua mais perfeita forma e execução é capaz de proporcionar.

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O roteiro nos apresenta a Andrew Neiman, interpretado lindamente por Miles Teller, um estudante de música que diferentemente da maior parte de seus pares não se contenta com um resultado medíocre. Neiman sabe que sua existência física é mero receptáculo para uma Arte que tem poder para transcender as barreiras do tempo e da morte, e está inteiramente disposto a abrir mão de qualquer outro tipo de desejo secundário para atingir o topo.

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Ah saias, malditas saias! Polêmica e pluralidade na exposição “Flavio de Carvalho: a experiência como obra” na Oca

Balonê, evasê, godê, mini, midi, maxi… poucas peças de vestuário deram margem à tantas interpretações diferentes quanto às saias. Não basta que sejam constantemente reinventadas, as saias parecem ter uma vocação natural para a polêmica: cada renovação é um flash.

Mais uma vez associadas à movimentos revolucionários dessa vez parece que as mesmas que libertaram as perninhas das moças em 1965 querem comprar brigas ainda maiores, que vieram à tona mais uma vez com o caso do funcionário público que resolveu ir trabalhar vestindo a saia de sua esposa. Se a minissaia está ligada de modo indissociável aos movimentos de libertação sexual feminina o uso de saia pelos homens flerta com questões ainda mais polêmicas: as tais “coisas de menino” e “coisas de menina”.

André Amaral em seu work look ventilado

André Amaral em seu work look ventilado

A sociedade adora delimitar regras de origens obscuras que podem até variar com o tempo, como é o caso da recente associação do cor-de-rosa com o universo feminino, mas que são inconscientemente tidas como “perenes e universais”. O uso da saia pelos homens pode até remontar às origens da civilização, mas hoje é visto como tabu pelas normas moralizantes vigentes. André Amaral pode até ter sido bastante arrojado no seu look de trabalho, mas não podemos ignorar que já teve gente fazendo isso há muito tempo.

As saias que já vestiram de Marc Jacobs à Caetano Veloso foram anarquicamente retratadas em um passeio do multi-artista Flávio de Carvalho pelo Viaduto do Chá em 1956. Numa época onde as mulheres ainda eram amélias e começava a fervilhar o sentimento que levaria à retomada de movimentos feministas nos anos 60, Flávio de Carvalho não foi apenas moderno como chocou ao adotar o uso do mais impactante símbolo feminino dando força à signos que eram (e ainda são) estigmatizados, associados à fragilidade e inferioridade.

Flávio de Carvalho dando um rolê em São Paulo com seu New Look

Flávio de Carvalho dando um rolê por São Paulo com seu New Look

E justamente sobre Flávio de Carvalho, uma figura ilustre do modernismo brasileiro, que se realiza uma exposição na Oca a partir de hoje. A mostra, organizada por Afonso Luz e intitulada “Flavio de Carvalho: a experiência como obra” retrata múltiplas faces da produção do artista que atuou como arquiteto, cenógrafo, teatrólogo, pintor, desenhista, escritor, filósofo, performer, músico…

A mostra fica em cartaz até o dia 30 de março e naturalmente conta com o New Look masculino.

Conclusão: as sainhas podem até parecer ingênuas, mas não se engane: elas jamais se acomodam.

“Flavio de Carvalho: a experiência como obra”
OCA – Parque do Ibirapuera
Av. Pedro Álvares Cabral – Portão 3
De 5 de Fevereiro à 30 de Março
De terça à domingo, das 9:00 às 17:00
Entrada franca

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Tradições, escurinho e um bom catálogo: o Belas Artes está de volta!

Hoje vi que logo logo vai ter mais um lugar legal para passear…

“Eu adoro essa parte. A luz vai se apagando, devagarzinho. O mundo lá fora vai se apagando, devagarzinho. Os olhos da gente vão se abrindo, daqui a pouco a gente não vai nem mais lembrar que tá aqui.”. Essa fala do filme “Lisbela e o Prisioneiro” define de forma bastante lírica o sentimento inexplicável proporcionado pelo cinema. Quem é cinéfilo sabe: ir ao cinema é mais do que um passeio. É uma sensação, um vício, uma coceira que não passa até você sentar na sala de projeção novamente e que volta pouco depois de sair dela. Lisbela ama o cinema. E se ela vivesse em São Paulo estaria extremamente feliz em saber que o Cine Belas Artes será reaberto.

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O Belas Artes, inaugurado em 1943 sob o nome de Cine Ritz, estava fechado desde o começo de 2011 e agora graças ao apoio financeiro da Caixa Econômica Federal será aberto novamente, com o nome de Cine Caixa Belas Artes e sob a batuta de André Sturm. Se assistir à filmes por si só é um ato de descoberta, poder fazer isso em uma das mais tradicionais salas da cidade é um meio de participar ativamente da história paulistana e desvendar muito de seu charme.

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Podem existir aqueles que questionam a validade do cinema como patrimônio histórico por sua arquitetura que não justifica o título. Pode até aparecer um ou outro que se mostre pouco saudoso ao cinema que tinha muitas escadas. Mas é fato que o Belas Artes permanece no imaginário de São Paulo como uma sala de referência no circuito alternativo. Além de que é  bastante nostálgico poder voltar a frequentar o cenário das crônicas de adolescência da sua mãe, da época em que ela ia “namorar no cinema depois do colégio”.

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O cinema que já sobreviveu à um incêndio em 1982 e teve seu prédio recentemente ameaçado de virar uma loja vê nessa reinauguração (prevista para maio) apenas mais um capítulo de sua história. A única certeza é a de que o Cine é uma instituição perene no afeto paulistano. Se ele será mera ruína dos tempos áureos de outrora ou ressurgirá poderoso das cinzas ainda não podemos saber. Recorro novamente então às palavras da nossa cara Lisbela:

“É sempre assim.  A graça não é saber o que acontece. É saber como acontece e quando acontece. A gente vai conhecer um monte de pessoas novas, um monte de problemas que a gente não pode resolver, que só eles podem. Vamos ver como. E quando. Está começando.”

Conclusão: Se eu fosse André Sturm manteria “Medos Privados em Lugares Públicos” na sessão das 14:40 #FicaADica

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Muita cor e deleite na exposição “Visões na Coleção Ludwig”

Hoje vi que algumas coisas são tão maravilhosas que é quase impossível descrevê-las…

O CCBB continua se esforçando em parecer que sempre é o melhor lugar da cidade para se estar. A mais nova mostra mantém o padrão de qualidade de suas anteriores e exibe com muito cuidado e coerência as 70 peças provenientes da Coleção Ludwig.

A exposição faz uma viagem pela efervescência artística dos anos 60 agregando obras de Arte Pop, Fotorrealismo, Neoexpressionismo e outros movimentos posteriores, funcionando não só como um deleite visual mas como um vivo retrato de sua época. Além de ser uma oportunidade muito especial de apreciar obras de grandes mestres sem precisar cruzar fronteiras internacionais.

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A Coleção Ludwig é uma das mais famosas coleções de arte particulares, montada ao longo dos anos pelo casal Irene e Peter Ludwig. A arrojada e vasta coleção  está espalhada por diversos museus e é um grande exemplo de como o colecionismo é valioso para a preservação de obras ao mesmo tempo em que gera debates acerca dos potenciais nocivos da prática caso as telas sejam mantidas fora do acesso ao público.

A exposição conta com nomes como Pablo Picasso e Andy Warhol, mas sou obrigada a confessar que fui completamente fisgada pelas poderosas composições de cores hipnóticas de Bernd Schwarzer. Não preciso nem dizer que a mostra está mais do que recomendada e o melhor de tudo: a entrada é franca.

Conclusão: Não existe nenhuma justificativa aceitável para não ir. Na verdade, já estou me programando para ir novamente.

Visões na Coleção Ludwig
Centro Cultural Banco do Brasil
27 de Janeiro à 07 de Abril
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro
São Paulo (SP)
(11) 3113-3651/3652

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A delicadeza de deixar de ser criança em “Azul é a Cor Mais Quente”

Hoje vi que crescer não é fácil e fazer filmes bons sobre esse processo é menos ainda…

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Em tempos da necessária militância à favor de direitos iguais para os homossexuais é impressionante que uma história de amor protagonizada por duas mulheres levante menos polêmica e mais reflexão. Por mais que muito tenha sido dito à respeito da longa e desnecessária cena de sexo que gerou acusações de abuso ao diretor Abdellatif Kechiche (ambas as protagonistas declararam que não trabalharão novamente com ele) ela é a primeira coisa a ser esquecida quando deixamos a sala de cinema de “Azul é a Cor Mais Quente”La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2 – 2013). O que fica em nós é a força do filme que desperta a sensação agridoce sobre o fim da juventude.

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Todas as faces do camaleão foram parar na vitrine: exposição sobre David Bowie abre as portas sexta-feira no MIS

Hoje vi que sexta é dia de rock, bebê!

David Bowie é dessas pessoas que parecem que nunca deixam de ser assunto. Seja por sua polêmica vida pessoal ou por  suas obras é inegável a influência comportamental, social e musical de Bowie em toda uma geração.

Seria muita pretensão dizer que é possível fazer uma varredura completa de uma pessoa que agrega ao mesmo tempo tantos personagens distintos, mas se esse objetivo foi ou não atingido é fato que a tentativa de fazê-lo foi nobre e em muito estilo. Chega ao MIS (Museu da Imagem e do Som) nessa sexta feira a maior exposição já feita sobre um artista pop: David Bowie, organizada pelo Victoria and Albert Museum (V&A) de Londres.

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Com a presença de figurinos, performances e fotografias a mostra promete ser uma verdadeira viagem pela mente do “Camaleão do Rock” e  uma oportunidade de compreender melhor suas ricas referências. Além de ser uma manobra muito inteligente do MIS para manter um público que se tornou cativo após o sucesso da mostra sobre Stanley Kubrick.

Bowie não é apenas uma celebridade. Ele é de uma espécie rara que se pode chamar de “artistas”. A exposição não só é um prato cheio para os fãs como também uma ótima oportunidade para apresentar esse gênio de diversas faces para uma geração que ainda não as conhece propriamente.

Conclusão: escolher apenas três músicas do Bowie para ilustrar qualquer coisa é uma tarefa injusta e impossível.

Museu da Imagem e do Som
Avenida Europa, 158,
Jardim Europa,
São Paulo – SP

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Quando as formas falam – “Transfigurações/o que precede o corpo” na Galeria Verve

Hoje vi que muita teoria nem sempre é necessária…

É de conhecimento geral que não devemos falar sobre coisas que não conhecemos. Tendo isso em mente, eu estava bastante receosa enquanto me dirigia à exposição da  recente Galeria Verve, “Transfigurações/o que precede o corpo”. O meu conhecimento acerca de arte contemporânea é basicamente nulo, então como eu poderia escrever um artigo sobre aquela mostra? Bastou eu chegar na frente da galeria para entender exatamente o porque tinha ido até lá.

Foto de divulgação da galeria

Foto de divulgação da Galeria

A Verve habita uma charmosa casa na rua Lisboa com uma entrada pequena que não passa desapercebida e se impõe com estilo no cenário da rua. O ambiente agradável invadido pela luz diurna cria uma atmosfera bastante convidativa para apreciar as peças ali expostas. Conversei então com Allann Seabra, artista plástico que também é diretor artístico e sócio da Galeria. Allann contou que após decidir o tema da exposição ele foi então repassado aos demais artistas para que fornecessem interpretações sobre o mesmo em diversas expressões como a fotografia, pintura e escultura.

"Sudário do meu I"; II e III de Allann Seabra - o uso do corpo como ferramenta da própria arte

“Sudário do meu I”; II e III de Allann Seabra – o uso do corpo como ferramenta da própria arte

Logo na entrada havia um conjunto interessante de esculturas humanas expressivas em bronze assinadas por Renato Blasch  . Além da diversidade de posições, algumas esculturas contrastavam em sua textura, resultado do uso de técnicas diferentes para a confecção do molde. Algumas delas eram lisas e límpidas sendo possível observar detalhes da interpretação da anatomia humana enquanto outras tinham aspecto mais áspero e visceral.

No andar inferior da galeria o que prende a atenção logo de início é o resultado material da performance “OLUCÁTEPSE”, executada pelo artista Francisco Rosa na abertura da mostra. A performance partiu de uma tela em branco posicionada no chão enquanto o performer, vestido de branco, caminhava sobre uma corda em uma sapatilha de ponta estourando balões de tinta que estavam no teto da galeria.

Escultura de Renato Blasch, foto de divulgação da Galeria

Escultura de Renato Blasch, foto de divulgação da Galeria

Mas confesso, o que eu mais gostei foram os trabalhos executados sobre linho e algodão da artista Luisa Malzoni. Entre lenços bordados e fotografias impressas com o uso de diferentes técnicas a nota comum entre os trabalhos de Luiza é a leveza com a qual eles nos atingem. O uso inteligente dos materiais dá às obras um sentimento de familiaridade e conforto, numa interpretação bastante lírica da suavidade da forma.

Ainda no andar de baixo podemos ver as telas intituladas “Sudário do meu I”, II e III, de Allann Seabra, que utilizou seu próprio corpo coberto de tinta para confeccionar as telas fazendo de sua obra um relato da transfiguração de seu corpo em movimento.

Retrato da artista Luisa Malzoni, revelado com uso de marrom van dyke

Retrato da artista Luisa Malzoni, revelado com uso de marrom van dyke

É importante também destacar a impactante peça denominada “Herança Negreira” de Fernanda Guedella, que consiste em uma frágil gaiola branca de portas abertas com cabeças de Raku-Cerâmica em seu interior. Para obter o efeito desejado, a artista queimou as peças de cerâmica dentro de cupinzeiros, que atuam como fornos e resultam no Raku. A peça além de muito bonita atua também como denúncia da situação da população negra que ainda hoje vive submetida ao preconceito velado que fervilha sob a superfície de uma convenção hipócrita que finge que o país oferece oportunidades iguais à todos.

Seria muito pretensioso da minha parte querer fazer uma análise completa das obras, eu não tenho gabarito para isso. Mas basta dizer que transfigurar é se metamorfosear. E se o tema era justamente sobre a mudança de forma e aquilo que a transcende, o resultado não poderia ser outro além de diversas expressões bastante pessoais e distintas que podem ser apreciadas e adquiridas na Galeria Verve na mostra que estará em cartaz até 20 de Fevereiro.

Galeria Verve
Rua Lisboa 285 – Jd. América
São Paulo – SP
Tel.: +55 11 2737-1249
contato@vervegaleria.com
Horário de funcionamento:
Seg – Sáb: 10hs às 20hs
Dom: 14hs às 18hs

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Conclusão: talvez o poder da arte seja mesmo esse, de conseguir falar conosco mesmo quando não estamos habituados com a sua linguagem.

As imagens utilizadas nesse post foram gentilmente cedidas pela galeria. Agradecimentos especiais à Maria Fernanda Balazs que me acompanhou na visita à galeria e colaborou largamente com esse post.

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