Arquivo da categoria: Award Season 2015

Birdman: a evidente virtude de um trabalho bem feito

Pode até ser que a imprensa geral tenha caído em cima de Boyhood e de sua filmagem espalhada ao longo de 12 anos, mas na comunidade cinéfila as atenções estavam todas voltadas para “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” (Birdman – 2014). Na verdade, os filmes do mexicano Alejandro González Iñárritu – que também dirigiu os famosos Babel e Biutiful, por exemplo – sempre recebem atenção por sua grande qualidade técnica, atenção essa que “Birdman” lindamente decidiu honrar.

birdman 3

Em seu melhor (dentre outros bons) filme até agora, Iñárritu nos insere dentro de um teatro e nos conduz com sua câmera flutuante para seguirmos alguma das figuras que ali habitam, uma de cada vez, para desvendarmos a história que vai se desenrolar ao longo das duas horas seguintes.

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , ,

Ida – a noviça jamais rebelde

“Ida” (2013) conta a história de Anna, uma noviça que antes de prestar seus votos e tornar-se definitivamente freira, sai pela primeira vez do convento para encontrar sua única familiar, sua tia Wanda (Agata Kulesza). Ao entrar pela primeira vez no mundo, Anna descobre que na verdade nasceu Ida e parte em uma road-trip com sua tia em busca de um passado em comum mas a viagem, como de praxe, logo se revela em uma busca de Anna por ela mesma.

ida 2

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , ,

Try (Just A Little Bit Harder) – a perfeição que não cai do céu com Whiplash

“Whiplash: Em Busca da Perfeição” (Whiplash – 2014) não apenas disserta sobre perfeição técnica como também beira esse objetivo. O melhor filme da Award Season além de ser uma verdadeira aula sobre como se fazer cinema é a síntese de várias emoções que circundam veladamente a produção artística.

O filme – escrito e dirigido por Damien Chazelle – conta com várias ideias bastante radicais a respeito da Arte e tinha tudo para ser tremendamente polêmico… mas foi tão bem executado que os espectadores, arrebatados, podem até ter comprado o debate do filme e refletido sobre ele mais tarde, mas antes se deixaram elevar para um estado de êxtase que só o Cinema em sua mais perfeita forma e execução é capaz de proporcionar.

whiplash 1

O roteiro nos apresenta a Andrew Neiman, interpretado lindamente por Miles Teller, um estudante de música que diferentemente da maior parte de seus pares não se contenta com um resultado medíocre. Neiman sabe que sua existência física é mero receptáculo para uma Arte que tem poder para transcender as barreiras do tempo e da morte, e está inteiramente disposto a abrir mão de qualquer outro tipo de desejo secundário para atingir o topo.

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , ,

O universo paralelo de “Dois dias, uma noite”

Em “Dois dias, uma noite” (Deux jours, une nuit – 2014) vemos uma talentosa Marion Cotillard tentando nos convencer com sua interpretação sincera e humana em um roteiro que, honestamente, não dá muita margem para isso.

O argumento do filme pode até ser interessante – uma mulher em recuperação de depressão deseja retornar ao trabalho, porém descobre que foi realizada uma votação onde os demais funcionários da fábrica desejaram obter seu bônus de fim de ano ao invés de permitir a reintegração da funcionária afastada. Cabe a ela então a tentativa quase impossível de persuadí-los a abrir mão de uma grande soma de dinheiro à favor do emprego dela.

marion

 

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , ,

As resenhas do Oscar 2015

O Oscar foi transmitido no domingo, dia 22. Você pode ver o que aconteceu na premiação AQUI e os meus looks prediletos AQUI.

Antes disso eu tinha feito as minhas apostas principais e técnicas e admito, errei feio em algumas das principais, mas de modo geral acertei a maioria. Você pode ver todos os textos que saíram no blog a respeito dos filmes da premiação nessa lista a seguir (vencedores em vermelho):

Boyhood: da Infância à Juventude – indicado à Melhor Filme; Melhor Direção (Richard Linklater); Melhor Ator Coadjuvante (Ethan Hawke); Melhor Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette); Melhor Roteiro Original (Richard Linklater); Melhor Edição (Sandra Adair)

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) – indicado à Melhor Filme; Melhor Direção (Alejandro González Iñárritu); Melhor Ator (Michael Keaton); Melhor Ator Coadjuvante (Edward Norton); Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone); Melhor Roteiro Original (Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo); Melhor Fotografia (Emmanuel Lubezki); Melhor Mixagem de Som (Jon Taylor, Frank A. Montaño e Thomas Varga); Melhor Edição de Som (Aaron Glascock e Martín Hernández)

O Grande Hotel Budapeste – indicado à Melhor Filme; Melhor Direção (Wes Anderson); Melhor Roteiro Original (Wes Anderson e Hugo Guinness); Melhor Fotografia (Robert D. Yeoman); Melhor Trilha Sonora (Alexandre Desplat); Melhor Edição (Barney Pilling); Melhor Direção de Arte (Adam Stockhausen e Anna Pinnock); Melhor Figurino (Milena Canonero); Melhor Maquiagem (Frances Hannon e Mark Coulier)

O Jogo da Imitação – indicado à Melhor Filme; Melhor Direção (Morten Tyldum); Melhor Ator (Benedict Cumberbatch); Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley); Melhor Roteiro Adaptado (Graham Moore); Melhor Edição (William Goldenberg); Melhor Trilha Sonora (Alexandre Desplat); Melhor Direção de Arte (Maria Djurkovic eTatiana Macdonald)

Whiplash: Em Busca da Perfeição – indicado a Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (J. K. Simmons); Melhor Roteiro Adaptado (Damien Chazelle); Melhor Edição (Tom Cross); Melhor Mixagem de Som (Craig Mann, Ben Wilkins e Thomas Curley)

A Teoria de Tudo – indicado à Melhor Filme; Melhor Ator (Eddie Redmayne); Melhor Atriz (Felicity Jones); Melhor Roteiro Adaptado (Anthony McCarten); Melhor Trilha Sonora (Jóhann Jóhannsson)

Selma – indicado à Melhor Filme e Melhor Canção Original (“Glory” – Common (as Lonnie Lynn), John Legend (as John Stephens))

Sniper Americano – indicado à Melhor Filme; Melhor Ator (hahahaha) (Bradley Cooper); Melhor Roteiro Adaptado (Jason Hall); Melhor Edição (Joel Cox e Gary Roach); Melhor Mixagem de Som (John T. Reitz, Gregg Rudloff e Walt Martin); Melhor Edição de Som (Alan Robert Murray e Bub Asman)

Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo – indicado à Melhor Direção (Bennett Miller); Melhor Ator (Steve Carell); Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo); Melhor Roteiro Original (E. Max Frye e Dan Futterman); Melhor Maquiagem (Bill Corso e Dennis Liddiard)

Para Sempre Alice – indicado à Melhor Atriz (Julianne Moore)

Livre – indicado à Melhor Atriz ( Reese Witherspoon) e Melhor Atriz Coadjuvante (Laura Dern)

Dois dias, uma noite – indicado à Melhor Atriz (Marion Cotillard)

Caminhos da Floresta – indicado à Melhor Atriz Coadjuvante (Meryl Streep); Melhor Direção de Arte (Dennis Gassner e Anna Pinnock); Melhor Figurino (Colleen Atwood)

O Juiz – indicado à Melhor Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Vício Inerente – indicado à Melhor Roteiro Adaptado (Paul Thomas Anderson) e Melhor Figurino (Mark Bridges)

O Abutre – indicado à Melhor Roteiro Original (Dan Gilroy)

Ida – indicado à Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia (Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski)

Relatos Selvagens – indicado à Melhor Filme Estrangeiro

Leviatã – indicado à Melhor Filme Estrangeiro

Operação Big Hero – indicado à Melhor Filme de Animação

Os longos “Caminhos da Floresta”

Vocês já andaram em um labirinto? Dependendo do tamanho da estrutura, em certo ponto, por mais bobo que isso pareça ser, é inevitável pensar se você de fato vai conseguir sair dali. Sensação parecida é provocada por “Caminhos da Floresta” (Into the Woods – 2014), um filme de apenas duas horas que magicamente parece durar oito. Nesse novo jeito de Hollywood de fazer musicais – cujo expoente máximo é “Os Miseráveis” (Les Misérables -2012) o objetivo parece ser mesmo vencer o espectador pelo cansaço.

into the woods emily

O prelúdio – onde um menininho canta sobre como queria que a sua vaca desse leite – já dá a dica: o musical vai ser daquelas dolorosas óperas modernas onde até mesmo o mais trivial dos diálogos sente a necessidade injustificável de se converter em música.

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Vale a pena sim conferir “Foxcatcher”!!!

Poucos filmes dessa temporada foram tão injustiçados como “Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo” (Foxcatcher – 2014). Sucesso de crítica porém fracasso de público, o filme mal estreou e em breve já deve estar fora do circuito. O que é uma pena, pois bem dirigido e magistralmente atuado, o filme sem dúvidas merece ser visto.

foxcatcher 1

Com roteiro inspirado por fatos reais, o filme retrata um dos crimes de maior repercussão midiática dos anos 90. E apesar de contar de novo uma história que todo mundo já conhece, o filme é bem construído a ponto de permitir que todos se surpreendam mais uma vez com a chocante história de John du Pont.

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , ,

O mundo então conhece um de seus grandes heróis: “O Jogo da Imitação” e a reparação de injustiças históricas

Com a notícia do perdão oficial concedido pela rainha Elizabeth II à Alan Turing no final de 2013 boa parte do público geral descobriu, chocado, a história de um homem que não só salvou o conceito de “mundo ocidental” como o conhecemos hoje como também inventou as “máquinas de Turing”, que posteriormente evoluíram até se tornarem os computadores que eu e você estamos usando nesse momento. Corrigindo essa injustiça histórica que se arrastou por quase 70 anos, chega às telas “O Jogo da Imitação” ( The Imitation Game – 2014), cujo principal mérito é apresentar ao público um homem praticamente anônimo que deveria ser exaltado como um de seus maiores heróis.

alan turning

 

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , ,

O superbonitinho “A Teoria de Tudo”

Stephen Hawking é uma das maiores mentes científicas da nossa geração. Ele também é famoso por conviver há 52 anos com uma doença degenerativa que supostamente deveria tê-lo matado aos 23. Pelo que ele não é famoso é, por além de tudo isso, ser também filho, irmão, marido, amigo e pai. Por detrás dos holofotes, a vida real de Stephen Hawking é colocada em foco no concorrente ao Oscar “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything – 2014).

theory 1

Com roteiro adaptado do livro de Jane (primeira esposa de Hawking), o filme é contado com a inconfundível doçura de falar de quem se ama. E que doçura. A bonita fotografia e trilha sonora perfeita criam cenário para Eddie Redmayne retratar, em uma performance comedida e certeira, o homem que foi companheiro de Jane (interpretada por Felicity Jones) desde os tempos de faculdade pelos quase 30 anos que se seguiram.

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , ,

“Selma” e uma reflexão sobre racismo velado

O que faz um bom filme? Certamente uma soma de fatores. As vezes é uma bela fotografia combinada à uma trilha sonora que transportam o espectador para dentro de um mundo de sonho. As vezes o filme se destaca por um elenco de interpretações intensas ou por vezes o filme foi abençoado com um roteiro genuinamente original. Aparentemente  então para os votantes da Academia, bastou que Selma tivesse uma boa canção para receber uma vaga na disputa de melhor filme. A inexplicável ausência de “Selma” (2014) nas categorias de atuação soa então como uma concessão de cota e explicita o desconforto: o Oscar desse ano está tão branco quanto um churrasco em Atlanta nos anos 50.

selma

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , ,