Arquivo da categoria: Exposições

Ah saias, malditas saias! Polêmica e pluralidade na exposição “Flavio de Carvalho: a experiência como obra” na Oca

Balonê, evasê, godê, mini, midi, maxi… poucas peças de vestuário deram margem à tantas interpretações diferentes quanto às saias. Não basta que sejam constantemente reinventadas, as saias parecem ter uma vocação natural para a polêmica: cada renovação é um flash.

Mais uma vez associadas à movimentos revolucionários dessa vez parece que as mesmas que libertaram as perninhas das moças em 1965 querem comprar brigas ainda maiores, que vieram à tona mais uma vez com o caso do funcionário público que resolveu ir trabalhar vestindo a saia de sua esposa. Se a minissaia está ligada de modo indissociável aos movimentos de libertação sexual feminina o uso de saia pelos homens flerta com questões ainda mais polêmicas: as tais “coisas de menino” e “coisas de menina”.

André Amaral em seu work look ventilado

André Amaral em seu work look ventilado

A sociedade adora delimitar regras de origens obscuras que podem até variar com o tempo, como é o caso da recente associação do cor-de-rosa com o universo feminino, mas que são inconscientemente tidas como “perenes e universais”. O uso da saia pelos homens pode até remontar às origens da civilização, mas hoje é visto como tabu pelas normas moralizantes vigentes. André Amaral pode até ter sido bastante arrojado no seu look de trabalho, mas não podemos ignorar que já teve gente fazendo isso há muito tempo.

As saias que já vestiram de Marc Jacobs à Caetano Veloso foram anarquicamente retratadas em um passeio do multi-artista Flávio de Carvalho pelo Viaduto do Chá em 1956. Numa época onde as mulheres ainda eram amélias e começava a fervilhar o sentimento que levaria à retomada de movimentos feministas nos anos 60, Flávio de Carvalho não foi apenas moderno como chocou ao adotar o uso do mais impactante símbolo feminino dando força à signos que eram (e ainda são) estigmatizados, associados à fragilidade e inferioridade.

Flávio de Carvalho dando um rolê em São Paulo com seu New Look

Flávio de Carvalho dando um rolê por São Paulo com seu New Look

E justamente sobre Flávio de Carvalho, uma figura ilustre do modernismo brasileiro, que se realiza uma exposição na Oca a partir de hoje. A mostra, organizada por Afonso Luz e intitulada “Flavio de Carvalho: a experiência como obra” retrata múltiplas faces da produção do artista que atuou como arquiteto, cenógrafo, teatrólogo, pintor, desenhista, escritor, filósofo, performer, músico…

A mostra fica em cartaz até o dia 30 de março e naturalmente conta com o New Look masculino.

Conclusão: as sainhas podem até parecer ingênuas, mas não se engane: elas jamais se acomodam.

“Flavio de Carvalho: a experiência como obra”
OCA – Parque do Ibirapuera
Av. Pedro Álvares Cabral – Portão 3
De 5 de Fevereiro à 30 de Março
De terça à domingo, das 9:00 às 17:00
Entrada franca

Etiquetado , , , , , , , , ,

Muita cor e deleite na exposição “Visões na Coleção Ludwig”

Hoje vi que algumas coisas são tão maravilhosas que é quase impossível descrevê-las…

O CCBB continua se esforçando em parecer que sempre é o melhor lugar da cidade para se estar. A mais nova mostra mantém o padrão de qualidade de suas anteriores e exibe com muito cuidado e coerência as 70 peças provenientes da Coleção Ludwig.

A exposição faz uma viagem pela efervescência artística dos anos 60 agregando obras de Arte Pop, Fotorrealismo, Neoexpressionismo e outros movimentos posteriores, funcionando não só como um deleite visual mas como um vivo retrato de sua época. Além de ser uma oportunidade muito especial de apreciar obras de grandes mestres sem precisar cruzar fronteiras internacionais.

Este slideshow necessita de JavaScript.

A Coleção Ludwig é uma das mais famosas coleções de arte particulares, montada ao longo dos anos pelo casal Irene e Peter Ludwig. A arrojada e vasta coleção  está espalhada por diversos museus e é um grande exemplo de como o colecionismo é valioso para a preservação de obras ao mesmo tempo em que gera debates acerca dos potenciais nocivos da prática caso as telas sejam mantidas fora do acesso ao público.

A exposição conta com nomes como Pablo Picasso e Andy Warhol, mas sou obrigada a confessar que fui completamente fisgada pelas poderosas composições de cores hipnóticas de Bernd Schwarzer. Não preciso nem dizer que a mostra está mais do que recomendada e o melhor de tudo: a entrada é franca.

Conclusão: Não existe nenhuma justificativa aceitável para não ir. Na verdade, já estou me programando para ir novamente.

Visões na Coleção Ludwig
Centro Cultural Banco do Brasil
27 de Janeiro à 07 de Abril
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro
São Paulo (SP)
(11) 3113-3651/3652

Etiquetado , , , , , , , , , , , ,

Todas as faces do camaleão foram parar na vitrine: exposição sobre David Bowie abre as portas sexta-feira no MIS

Hoje vi que sexta é dia de rock, bebê!

David Bowie é dessas pessoas que parecem que nunca deixam de ser assunto. Seja por sua polêmica vida pessoal ou por  suas obras é inegável a influência comportamental, social e musical de Bowie em toda uma geração.

Seria muita pretensão dizer que é possível fazer uma varredura completa de uma pessoa que agrega ao mesmo tempo tantos personagens distintos, mas se esse objetivo foi ou não atingido é fato que a tentativa de fazê-lo foi nobre e em muito estilo. Chega ao MIS (Museu da Imagem e do Som) nessa sexta feira a maior exposição já feita sobre um artista pop: David Bowie, organizada pelo Victoria and Albert Museum (V&A) de Londres.

bowie 2

Com a presença de figurinos, performances e fotografias a mostra promete ser uma verdadeira viagem pela mente do “Camaleão do Rock” e  uma oportunidade de compreender melhor suas ricas referências. Além de ser uma manobra muito inteligente do MIS para manter um público que se tornou cativo após o sucesso da mostra sobre Stanley Kubrick.

Bowie não é apenas uma celebridade. Ele é de uma espécie rara que se pode chamar de “artistas”. A exposição não só é um prato cheio para os fãs como também uma ótima oportunidade para apresentar esse gênio de diversas faces para uma geração que ainda não as conhece propriamente.

Conclusão: escolher apenas três músicas do Bowie para ilustrar qualquer coisa é uma tarefa injusta e impossível.

Museu da Imagem e do Som
Avenida Europa, 158,
Jardim Europa,
São Paulo – SP

Etiquetado , , , , , ,

Quando as formas falam – “Transfigurações/o que precede o corpo” na Galeria Verve

Hoje vi que muita teoria nem sempre é necessária…

É de conhecimento geral que não devemos falar sobre coisas que não conhecemos. Tendo isso em mente, eu estava bastante receosa enquanto me dirigia à exposição da  recente Galeria Verve, “Transfigurações/o que precede o corpo”. O meu conhecimento acerca de arte contemporânea é basicamente nulo, então como eu poderia escrever um artigo sobre aquela mostra? Bastou eu chegar na frente da galeria para entender exatamente o porque tinha ido até lá.

Foto de divulgação da galeria

Foto de divulgação da Galeria

A Verve habita uma charmosa casa na rua Lisboa com uma entrada pequena que não passa desapercebida e se impõe com estilo no cenário da rua. O ambiente agradável invadido pela luz diurna cria uma atmosfera bastante convidativa para apreciar as peças ali expostas. Conversei então com Allann Seabra, artista plástico que também é diretor artístico e sócio da Galeria. Allann contou que após decidir o tema da exposição ele foi então repassado aos demais artistas para que fornecessem interpretações sobre o mesmo em diversas expressões como a fotografia, pintura e escultura.

"Sudário do meu I"; II e III de Allann Seabra - o uso do corpo como ferramenta da própria arte

“Sudário do meu I”; II e III de Allann Seabra – o uso do corpo como ferramenta da própria arte

Logo na entrada havia um conjunto interessante de esculturas humanas expressivas em bronze assinadas por Renato Blasch  . Além da diversidade de posições, algumas esculturas contrastavam em sua textura, resultado do uso de técnicas diferentes para a confecção do molde. Algumas delas eram lisas e límpidas sendo possível observar detalhes da interpretação da anatomia humana enquanto outras tinham aspecto mais áspero e visceral.

No andar inferior da galeria o que prende a atenção logo de início é o resultado material da performance “OLUCÁTEPSE”, executada pelo artista Francisco Rosa na abertura da mostra. A performance partiu de uma tela em branco posicionada no chão enquanto o performer, vestido de branco, caminhava sobre uma corda em uma sapatilha de ponta estourando balões de tinta que estavam no teto da galeria.

Escultura de Renato Blasch, foto de divulgação da Galeria

Escultura de Renato Blasch, foto de divulgação da Galeria

Mas confesso, o que eu mais gostei foram os trabalhos executados sobre linho e algodão da artista Luisa Malzoni. Entre lenços bordados e fotografias impressas com o uso de diferentes técnicas a nota comum entre os trabalhos de Luiza é a leveza com a qual eles nos atingem. O uso inteligente dos materiais dá às obras um sentimento de familiaridade e conforto, numa interpretação bastante lírica da suavidade da forma.

Ainda no andar de baixo podemos ver as telas intituladas “Sudário do meu I”, II e III, de Allann Seabra, que utilizou seu próprio corpo coberto de tinta para confeccionar as telas fazendo de sua obra um relato da transfiguração de seu corpo em movimento.

Retrato da artista Luisa Malzoni, revelado com uso de marrom van dyke

Retrato da artista Luisa Malzoni, revelado com uso de marrom van dyke

É importante também destacar a impactante peça denominada “Herança Negreira” de Fernanda Guedella, que consiste em uma frágil gaiola branca de portas abertas com cabeças de Raku-Cerâmica em seu interior. Para obter o efeito desejado, a artista queimou as peças de cerâmica dentro de cupinzeiros, que atuam como fornos e resultam no Raku. A peça além de muito bonita atua também como denúncia da situação da população negra que ainda hoje vive submetida ao preconceito velado que fervilha sob a superfície de uma convenção hipócrita que finge que o país oferece oportunidades iguais à todos.

Seria muito pretensioso da minha parte querer fazer uma análise completa das obras, eu não tenho gabarito para isso. Mas basta dizer que transfigurar é se metamorfosear. E se o tema era justamente sobre a mudança de forma e aquilo que a transcende, o resultado não poderia ser outro além de diversas expressões bastante pessoais e distintas que podem ser apreciadas e adquiridas na Galeria Verve na mostra que estará em cartaz até 20 de Fevereiro.

Galeria Verve
Rua Lisboa 285 – Jd. América
São Paulo – SP
Tel.: +55 11 2737-1249
contato@vervegaleria.com
Horário de funcionamento:
Seg – Sáb: 10hs às 20hs
Dom: 14hs às 18hs

Este slideshow necessita de JavaScript.

Conclusão: talvez o poder da arte seja mesmo esse, de conseguir falar conosco mesmo quando não estamos habituados com a sua linguagem.

As imagens utilizadas nesse post foram gentilmente cedidas pela galeria. Agradecimentos especiais à Maria Fernanda Balazs que me acompanhou na visita à galeria e colaborou largamente com esse post.

Etiquetado , , , , , , , ,